quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Os vidros do mar

Busca ali teus potes d'água. Tem dias te via remover dos quadros a pintura grave de nossos pais para depositar no porão a memória dos abismos. E acreditei mesmo que pudesse o colorado coração reverter-se em coisa mais branda para, nas sutilezas do amanhã, repontar como sentimento que serena, sereneia. Isto, porém, são esperanças sublimadas. O que se nos afigura nos espelhos molhados do oceano é a verdade cristalina e velada, cujas imagens atenuam a dor que sofre o vidraceiro do mar quando tece os destinos desumanos. Das veias azuis das águas a onda do tempo relega aos corais a árdua tarefa de transcrever em minério e sal a história dos corpos marcados, das almas irresolutas; obriga-o a manter a vigília aberta em som quase silencioso, atenta ao movimento primeiro dos abismos do mar. Uma solitária criatura aguarda a visita das sombras na restinga mais distante de nossos pontos cardeais, que é também a mais próxima. Se lhe surgir da esquina o vulto cinza e disforme, há de descerrar no mar todo o odor que lhe entregara a flor última e perpétua, objeto inconsútil de seu agônico amor. Se lhe surpreender de súbito, há de retrair de sua alma todo o calor, e devolver-lhe, noutro súbito. Como é de se retrair a figura humana ante o tridente das deusas, das pernas espessas e firmes, das ancas juramentadas no vigor, o vidraceiro do mar venderá sua alma mais uma vez à redoma de águas-vivas, e a noite será o fecho do mundo de fora para o espetáculo do oceano onde ele é profundo. Ali, sim, onde um coração se vende, prova o sangue ser o contrato mais forte com a sombra dos abismos, que o coração só lhe faz valer se o entrega em causa de uma perdição.

Luis Gustavo Cardoso

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

No mar do Líbano

O teu corpo são as vagas, as magas magalis. Ando perguntando do tempo quais suas vantagens, um sobrepor humano sobre coisa de deuses gregos. Amar é como estender meu braço para apertar teu pulso naquela tarde quente que ainda virá. Ando perguntado do tempo quais suas vertigens, depois do medo da noite e do cheiro de mar. Caminhar do pier em direção à barca é rumar fronteira para dentro do absurdo: onde a madeira vaga encontra o oceano, ali é onde somos, suspensos e raros. De toda filosofia esculpi teu corpo na pedra, hoje sopro os cabelos teus com a consciência de homem bruto e viril que abandonou de vez a pena para romper do silêncio a música profunda das águas. Com este meu corpo que se alinha ao teu, em que aparatos se encaixam e fundem, hei de romper nossos limites de carne e sal. Sou como a água e a maresia que em profusa harmonia adensam em volume para depois, nos claros de afogar sentimento, revelam do entreaberto o tênue e frágil coração minério. E como a carne faz romper linguagem, e como a língua faz romper teu idioma na terra de meus mamilos jovens e tesos demais, adentro as vagas de tuas paisagens para pintar de azul restingas e areais. E como minhas mãos não estivessem acostumadas a transgredir os espaços, faço-me de virgem santo por detrás da camisa azul de botão, e eis que o corpo mostra que, escafandro, te abraça as costas dos poréns finais.

Luis Gustavo Cardoso

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Demais

Demais. Isto é que é sal. Recobrei a memória, as memórias. De há tempo eu pretendia voltar, voltei. Como disseram em Onolulu, o coração tem gostos estranhos, quentes. Para os tribais do Hawaí, o traço forte recomenda a união entre homem e mulher, e após o ritual do casamento, é com sangue e água da ilha que se faz o banquete. Uma ave deixou a península ática para vir pousar no Oceano Pacífico, e o corpo do mundo é o corpo do mundo novamente. Para os temperamentos literários: medos aviários, de avião. Para cintura de mulher, mãos. A concha e a esponja. O mar e a espuma. A carência musical em desterritorializar os vazios, repondo a neutralidade do sublime, a pretensão do sublime. Ora, trazei até mim o corpo de Hipólito desolado, que não compreendeu os poderes femininos. Ora, trazei até mim as mãos pálidas e os óculos leniabertos de Carlos Drummond de Andrade, e veremos onde o leão-marinho encontrou o que procurava. Tristezas à parte, o homem está fadado a ser maior que Zeus, pela sedução de Crísis. Corpo de mulher em nossa cama exorta a gente mesmos, para sublimitudes. Corpo de mulher que se ama, então, é como ter o mar em casa. Demais.

Luis Gustavo Cardoso

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Maresia de intervenção...