terça-feira, 30 de maio de 2023

ESCRITOR ENGAJADO

Escritor engajado insiste em fazer pose para a foto.

Pose de intelectual.

Gente séria.

Comprometida.

Engajada.

Aquele jeito de quem sabe

as dores do mundo

tem consciência de classe

não negou jamais a sua identidade

e reconhece 

- o riso superior mal disfarçado é a prova -

sua condição de privilegiado.


Escritor engajado é outra história.

Faz questão de botar aquele silêncio obsceno

em cima da mesa das suas comadres.

Mas ao chegar em casa é o primeiro

a encher de queixas o gato no sofá e

a vizinhança inteira.


O escritor engajado anda pelos

muquifos da cidade grande

onde recusa beber com os cachaceiros locais

e vai ao interior espairecer as ideias

na condição de recluso

mal compreendido.


Lá na fazenda dos bichos

onde a luta de classes dá um tempo

e impera a boa e velha servidão

que traz ao escritor engajado

o leite e o queijo frescos.


O escritor engajado não prefere gênero

escreve em transversais

e jamais adotaria um poema natural.

O seu trabalho é seguir

entre jargões não analisados

as pistas do seu psicanalista.


O escritor engajado não tem

amor ao próximo, 

só ao próximo da fila 

de seus adoradores

colegas, cupinchas,

todos maus escritores

como ele.

Mas o que importa?

São engajados.


Luis Gustavo Cardoso

domingo, 24 de julho de 2022

Le città e la memoria 5, Italo Calvino

  A Maurilia, il viaggiatore è invitato a visitare la città e nello stesso tempo a osservare certe vecchie cartoline illustrate che la rappresentano com’era prima: la stessa identica piazza con una gallina al posto della stazione degli autobus, il chiosco della musica al posto del cavalcavia, due signorine col parasole bianco al posto della fabbrica di esplosivi. Per non deludere gli abitanti occorre che il viaggiatore lodi la città nelle cartoline e la preferisca a quella presente, avendo però cura di contenere il suo rammarico per i cambiamenti entro regole precise: riconoscendo che la magnificenza e prosperità di Maurilia diventata metropoli, se confrontate con la vecchia Maurilia provinciale, non ripagano d’una certa grazia perduta, la quale può tuttavia essere goduta soltanto adesso nelle vecchie cartoline, mentre prima, con la Maurilia provinciale sotto gli occhi, di grazioso non ci si vedeva proprio nulla, e men che meno ce lo si vedrebbe oggi, se Maurilia fosse rimasta tale e quale, e che comunque la metropoli ha questa attrattiva in più, che attraverso ciò che è diventata si può ripensare con nostalgia a quella che era. Guardatevi dal dir loro che talvolta città diverse si succedono sopra lo stesso suolo e sotto lo stesso nome, nascono e muoiono senza essersi conosciute, incomunicabili tra loro. Alle volte anche i nomi degli abitanti restano uguali, e l’accento delle voci, e perfino i lineamenti delle facce; ma gli dèi che abitano sotto i nomi e sopra i luoghi se ne sono andati senza dir nulla e al loro posto si sono annidati dèi estranei. È vano chiedersi se essi sono migliori o peggiori degli antichi, dato che non esiste tra loro alcun rapporto, così come le vecchie cartoline non rappresentano Maurilia com’era, ma un’altra città che per caso si chiamava Maurilia come questa. 

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Diálogo

- Hoje nem acredito que...

- Tudo bem, estes são tempos difíceis.

- Eu até quis colocar uma ordem na casa, mas...

- O coração pensa constantemente.

- Você não viu como estava isto aqui de madrugada, era só...

- Vontade não falta a ninguém.

- Às vezes desconfio de que nada acabou, nem...

- A mania de não acabar nada.

- Esperei toda a tarde pelo fim do dia, juntei tantas coisas e...

- O fim do dia demora a ficar pronto. Só chega de uma vez.

- Só sei que...

- Eu estou cansada.

- Mas então acabou. Já é hora, mesmo sem ter pra onde ir, já é hora de dizer...

- Adeus.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Sobre os livros

Algo fascinante nos livros é que eles conservam, apesar de nossos vãos esforços por fixar uma interpretação, o infinito. É dizer que os livros, quietos nas estantes das casas, nos fundos de livrarias, nas bibliotecas, conservam um poder e um mistério: o poder de sempre luzir sob uma luz diferente, que é a consciência de seu novo leitor; o mistério de replicar seus sentidos a uma potência de base infinita, porque nenhum leitor é como outro. São esse mistério e esse poder que definem os livros como algo fora da tirania, um objeto incompatível com a tirania do intérprete.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Two English Poems



                          I

   

   The useless dawn finds me in a deserted street-

      corner; I have outlived the night.

   Nights are proud waves; darkblue topheavy waves

      laden with all the hues of deep spoil, laden with

      things unlikely and desirable.

   Nights have a habit of mysterious gifts and refusals,

      of things half given away, half withheld,

      of joys with a dark hemisphere. Nights act

      that way, I tell you.

   The surge, that night, left me the customary shreds

      and odd ends: some hated friends to chat

      with, music for dreams, and the smoking of

      bitter ashes.  The things my hungry heart

      has no use for.

   The big wave brought you.

   Words, any words, your laughter; and you so lazily

      and incessantly beautiful.  We talked and you

      have forgotten the words.

   The shattering dawn finds me in a deserted street

      of my city.

   Your profile turned away, the sounds that go to

      make your name, the lilt of your laughter:

      these are the illustrious toys you have left me.

   I turn them over in the dawn, I lose them, I find

      them; I tell them to the few stray dogs and

      to the few stray stars of the dawn.

   Your dark rich life ... 

   I must get at you, somehow; I put away those 

      illustrious toys you have left me, I want your

      hidden look, your real smile -- that lonely,

      mocking smile your cool mirror knows.

   

                       II

   

   What can I hold you with?

   I offer you lean streets, desperate sunsets, the

      moon of the jagged suburbs.

   I offer you the bitterness of a man who has looked

      long and long at the lonely moon.

   I offer you my ancestors, my dead men, the ghosts

      that living men have honoured in bronze:

      my father's father killed in the frontier of

      Buenos Aires, two bullets through his lungs,

      bearded and dead, wrapped by his soldiers in

      the hide of a cow; my mother's grandfather

      --just twentyfour-- heading a charge of

      three hundred men in Peru, now ghosts on

      vanished horses.

   I offer you whatever insight my books may hold, 

      whatever manliness or humour my life.

   I offer you the loyalty of a man who has never

      been loyal.

   I offer you that kernel of myself that I have saved,

      somehow --the central heart that deals not

      in words, traffics not with dreams, and is

      untouched by time, by joy, by adversities.

   I offer you the memory of a yellow rose seen at

      sunset, years before you were born.

   I offer you explanations of yourself, theories about

      yourself, authentic and surprising news of 

      yourself.

   I can give you my loneliness, my darkness, the

      hunger of my heart; I am trying to bribe you 

      with uncertainty, with danger, with defeat.

   

   

                     - Jorge Luis Borges (1934)

sábado, 17 de outubro de 2020

ÁUREAS & NOSTOS


 

a jazante tâmara queixa às águas

e de um chão de areia logo larga:

a grossa casca a sua noz enfralda

e na corrente desce, deixa a casa


no burburinho choro das camisarias

uma qualquer memória dos sinistros

tons da tâmara como se de oliveiras

e repartidas cãs, os deixai-disso


mais descascam abusões os boticários

quando é ouro o odor conflagrado:

das senhoras de sargaço e adágios

uma noz se abre à foz, nunca aos lábios.


Poema meu que brinca com os versos de um poema de Marcus Fabiano Gonçalves: OS BONS VENTOS (BÓREAS& NOTOS)