sábado, 29 de outubro de 2016

Lírico-caipira

Não me furto jamais à cor de teus óio,
antes havera furtado a paisagem e o fogo
de Deus lá em riba.

Antes havera descido ao fogo dos
quintos do lá-embaixo,  adonde o manhoso
dorme acordado.

Apois que amor é um pouco disto-aquilo,
andar sempre em haver co' bem-amado,
mei' sem rumo.

Luis Gustavo

domingo, 9 de outubro de 2016

Entre o farol e a neblina

Antes de ser acordado pelo relógio, dobrei uma esquina. E atrás da neblina baixa e densa, você sorria: os olhos abertos, escuros e com um brilho muito forte. São, quem sabe, os faróis de um carro - pensei. Subindo o meio-fio, vi seu rosto com clareza: branco, molhado e ainda sorrindo. Mas não era um sorriso dado. Era antes uma marca de dentes, um sorriso armado e eterno. Assustei-me. Toda essa neblina - disse a mim mesmo - bem podia ser as águas do trópico de sal, anos atrás. Qualquer coisa de molhada, espessa e de cortina. Qualquer coisa meio silenciada e meio dita. Um rumor sereno e incômodo. Bem podia ser, esta rua - como este meio-fio - os fechos da fazenda marinha, em cuja portinhola eu botava as cartas pra você. E a sua aparição bem podia ser a mesma: fugaz, derradeira, finita. E os olhos que brilhavam, faróis de um carro, bem podiam ser outros faróis. Os que se pescam em noite escura, fora da superfície, no continente. Na condução de embarcações pela baía. Na guarida de almas humanas desembarcadas, habitantes de um naufrágio. Ou ainda na proteção dos guardas do próprio farol, munidos de vodka e um radinho de pilha. Em tudo a sua aparição me parecia coisa antiga, datada. Como uma carta que eu deixasse de postar e, incomodada, se insinuasse para fora das gavetas. Eu que sempre quis colher as camélias do sonho. Que sempre quis sonhá-las tanto, com tal força e convicção que pudesse impô-las à realidade. Eu, que aprendi as manhas do sonho, que inventei as regras do jogo, não pude resistir à vigília. Veio o som do relógio, a luz da manhã e dissolveu, como em todos os domingos, os faróis, as ondas, a neblina espessa, tudo.

Gustavo

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Omoplatas

O presente grego que me deste era antes alexandrino
e quando viravas de costas eu sabia que a imagem de um anjo
abriria suas asas com a maciez das omoplatas
para que cuidasses do varal.

Para dizer-te a verdade não foi bem o encalacrado coração,
mas o invólucro que o trazia, aquilo que me surpreendeu;
e sabes bem, foi antes a fita;
e antes dela o nó perfeito.

Jamais puseste as mãos úmidas em meu samba-canção
como as colocavas sob o sol daquela tarde,
mas em meu peito sempre as tinhas
iluminadas de longe por um riso de Monalisa.

A estas altas horas da noite sei que estás reclinada
com um livro e pelo menos duas xícaras de café
e alguma cartografia já borrada por guerras.

Mas antes de tais guerras sei também que nossos destinos
só puderam cruzar-se e perder-se porque a borra mesmo
do café confunde em todos nós os nossos caminhos,
feito o escrito dantesco:

Io non so ben ridir com'i' v'intrai,
tant'era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Lo que tienes

No me encantan tus ojos porque ya es mañana
sino porqué son oscuros y duros como la piedra.

No me dicen tus labios lo que dice el viento
porque de tus labios salen palabras y sangre.

No te doy oídos, callado, porque tienes espíritu
sino porque tu cuerpo ocupa un espacio perfecto.

No te quiero jamás de un modo abstracto
porque cuando sueño contigo tienes carne
y traes carne y sangre y piedra al sueño.

Tu tienes el olor que tienes, el paso que tienes,
el hálito que tienes y todo lo demás.

Y todo lo demás está cerrado.

Luis Gustavo Cardoso

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Billie Jean

Pensei nesta gravação enquanto atravessava o viaduto Santa Efigênia.


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Antiguidades ou cacos modernos

Eu que sempre andei com gatos persas, com o mesmo vigor desconfiei dos siameses. Sobretudo quando andavam aos pares e, simétricos, descreviam no caminhar diante de mim diagonais. Era assim: bastava que eu entrasse na sala e os siameses, cada qual, deslocavam-se dos cantos superiores esquerdo e direito, em trajetória diagonal. Quando cruzavam-se no meio do cômodo, apenas eu os notava. A família assistia à televisão.

Era tarde já e o acordeon do avô estava sobre o armário de seu quarto. Meu avô dormia. E o cheiro da velhice anunciava um silêncio opaco, que sua respiração agravava ainda mais. A cama, o colchão, o criado-mudo, todas as coisas ali eram velhas, como meu avô. Nas venezianas de ferro oxidado o vento era filtrado. Desconfio que trazia menos notícias de fora do que levava as de dentro de seu quarto: os arredores, as hortaliças, os jardins, as fazendas e o universo todo talvez desconfiassem, na entrada da noite, da velhice e do cheiro de meu avô.

Algumas vezes acordei com a cama molhada e, pensando bem e sem pudor, o calor do mijo trazia-me certa paz e uma forma curiosa de afeto. Algumas vezes dormia com os jeans apertados e podia resgatar, ainda mais, a infância presente, no futuro perdida. Algumas vezes, no entanto, de calcinha e camisola, eu carregava para a cama as formigas tanajuras que recolhera durante a tarde; acendia fogo nas cascas de laranja, que minha intuição adivinhava incensadas; e passava frio.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

FODA-SE

Tenho apertado o botão do FODA-SE tantas vezes que acho que ele está quebrado.

sábado, 2 de julho de 2016

RECONTANDO UMA HISTÓRIA QUE OUVI

Um rei persa era, justamente ele, o sujeito mais melancólico de todo o reinado. Aborrecido com tanta tristeza, despachou seus capangas por toda a península a fim de achar alguém que fosse realmente feliz. Durante meses não acharam ninguém. Mas eis que encontram no meio do deserto um pastor, que mais lhes parecia um pobre diabo, arrebanhando suas cabras. Perguntam-lhe:

- És feliz?
- Sim, sou feliz.
- Do que precisas para ser feliz?
- De nada. Não preciso de nada.
- Então faz favor de emprestar tua camisa ao rei, para que ele também seja feliz.
- Não tenho, nem preciso de camisa.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Quanto mistério há nos narizes: torcei-os à vontade! Já os braços não; os braços, os mais fortes até, são delicados e quebram fácil, fácil. Então, jamais dai o braço a torcer. Eis a que resumo a minha filosofia.

domingo, 12 de junho de 2016

Kothbiro [a chuva já vem]

Hah
Haye haye
haye haye 
haye haye

Auma, não escuta o que digo?
A chuva já vem,
traz o gado pra casa!

Chame as crianças.
Que você acha está fazendo?
A chuva já vem,
traz o gado pra casa!

Tradução: Luis Gustavo Cardoso

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Um girassol da cor de seu cabelo

Aquele sol entrava pela janela de meu quarto: circumperfeito, aberto, direto, claro, quente. As entradas da veneziana permitiam a passagem de outros fios, como se fios de cabelo se anunciassem na atmosfera do quarto. Era uma edícula para o quintal e eu lia Os sonhos não envelhecem e ouvia, como um louco, febril, o disco do Clube da Esquina. Não quero atribuir sentido à história, o sentido está no disco e naquelas tardes inteiras, desfiadas entre o livro de Márcio Borges e o disco. Mas ali eu já pensava - e por isso sentia - muita coisa. Muita coisa determinante, definitiva. Era como se eu tomasse um trem. E a esse êxtase, em que se fundem o gozo estético, a pergunta fundamental sobre quem somos, os amores pretéritos presentes futuros, os sempre-amores, os amigos, somava-se uma calmaria, uma tranquilidade, um não passar das horas. Nem sempre temos horas assim. Da cozinha, da copa, da sala, dos corredores, dos quartos, Maria e Zenaide vigiavam meu sono quieto. Secretamente zelavam por meu distante, sonoro, ensolarado casulo.



quinta-feira, 2 de junho de 2016

Previdente

Não é bem questão de saber se
nem bem questão de saber quando
a questão é só bem saber bem
de qual andar hei de soltar o corpo.

domingo, 29 de maio de 2016

Os lá de casa (Luis Gustavo Cardoso)

Tu sabes o que é não ter perto o irmão caçula? Deixar-se estar imaginando, passando-lhe as tuas mãos entre os seus cabelos macios, que crescem mais rápido e mais grossos. E a irmã do meio, cuja sombra cresce e se afasta no chão? Cujo sorriso denuncia a mudança de fases, como a lua, de noite, como o sol, de dia, num ir e vir inconstante. E a voz da mãe, que chama da cozinha? Panelas, colher-de-pau, pratos sobre a mesa. E sua pergunta fundamental, simples, definitiva, em seus lábios mais sincera, ecoando sobre os tempos: ''tudo bem?'' Tu sabes o que é ter longe de si o sorriso franco, aberto, sereno do pai? Seus cabelos já grisalhos, poucos, que o vento acha na tarde de domingo, quando na cadeira de vime e de balanço. E os cães de todos: primas, tios, correndo pelas garagens, em cada porta atravessando casas, cidades inteiras, para costurar a história de uma só família. E a memória da avó, para sempre modificada em nossa própria memória? Diz pra mim uma coisinha: tu sabes bem o que é não ter perto os amigos? Sua presença, silenciosa ou plena de ruídos, firme, atenta. Seu corpo que é um corpo só de escutas, de cuidados. Sua alma, que é uma alma de caminhos, de empreitadas, de um não-tempo, de um sempre-já. Tu sabes o que é imaginar a tua cidade, como ela era, sabendo-a em cada instante radicalmente mudada? Imaginar as praças que o concreto suprimiu em tua ausência, as árvores de corações partidos, a velha escola, a velha rua, a velha casa. Tu sabes? Pois é.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

relato de viagem

Entre o mandarim e o grego um medo sem fim. há muito tempo mandei-me de aqui. outro dia anunciaram um navio e meteram-me nele. desertos atravessam-me mas nada nada nada calou mais fundo do que a água parada do mar morto, donde vieram os espíritos inquietos. puseram sobre minha cabeça uma coroa de espinhos. uma senhorinha já depois dos quarenta desceu-me as calças. a multidão chorava. subi o cáucaso até onde me disseram que havia moiras. e soltaram os seios no tempo. eram negras, beduínas, ruivas, camponesas. deram-me o leite de cabra e apontaram-me os campos sem lavra. chovia, fazia frio em são paulo. senti de longe que me escrevias esta carta de despedida. eram os cães que você enterrara no quintal. pedi em sofia que lhes rezassem uma missa. tomei uma aeronave de cujos assentos me olhavam crianças e velhos dados como perdidos. e não sei bem se a comissária oferecia-me whisky ou lições de romeno. os caixilhos de som tocavam bach e estávamos todos no céu. quando abri os olhos, mirava as torres de burma enquanto o balão descia. fui à praia de baía cerrada e alto-mar. dispersas, conchas anunciavam a entrada do castelo. toquei a areia das muradas e eram teus seios firmes que se desfaziam, em minhas mãos, como o sal no sargaço e as pipas no vento.

Luis Gustavo

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Ao deus do tempo

Ao deus do tempo,
que subverteu as cores de maio,
e pôs sobre nossas cabeças nuvens espessas,
rogamos piedade.

Ao deus de muitas cabeças
que empalidece flores e folhas
colhendo para o futuro a morte necessária
rogamos piedade.

Ao deus que aos seus aflige,
com o fito da esfinge,
com o verso da saudade.

Ao deus do filtro turvo,
dos olhos sujos, da finitude,
rogamos outra morte.

A morte da saúde,
o fim da saúde e da saúva,
a sequidão da verdade.

E assim quebremos como a casca dura
e o caule que há sem verga em cada árvore.

Tornemos pó ao pó, poeira que há na tarde,
e assim saber de agosto o denso, o espesso;
a grossa tempestade.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Jamais mostres teu poema a um dinossauro

Jamais mostres teu poema a um dinossauro. O tronco vergado e a boca que rumina o denunciam. Está sentado sobre a idade da pedra e tem preguiça de levantar-se. O pescoço é um torcicolo e, na procura da carne, não vê coração. Se lhe entregas teus escritos num papel-carta, não lhe cabe nas mãos.

Pensa bem: o couro é grosso. Olha só: tem as unhas limadas. Imagina: o hálito de dragão.  E a língua comprida, nem se fala. Os olhos de sempre-amarelo-hepatite.

Jamais mostres teu poema a um dinossauro. Nem lhe reveles teus sentimentos: o que fabricas noite adentro, os livros que lês, os discos que colecionas, tuas fábulas e alusões.

O dinossauro é, desde tempos imemoriais, uma besta especializada.


Saudadinha é coisa à toa.

domingo, 8 de maio de 2016

Não penduremos o presente no cabide do futuro.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Os circuitos de consagração social serão tanto mais eficazes quanto maior a distância social
do objeto consagrado.

BOURDIEU

domingo, 24 de abril de 2016

Nas primeiras noites de outono

Com uma lua assim tão alta e clara
a cujo halo se achegam os planetas
Vênus, Marte, Saturno;
com um vazio assim noturno
há pelas ruas uma porção de significantes
sonoros, ruídos, miados,
jamais significados.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

A borboleta, um conto infantil

- Mamãe, mamãe! Tem uma borboleta no chão do banheiro. É gigante, mamãe!

- Sei. Escova os dentes e vai já pra cama.

- Mamãe, mamãe! Eu mexo nela, mas ela não quer sair. O chão está molhado, acho que alguém pode pisar, empurrei um pouquinho aquele tapetinho debaixo do chuveiro, ela bateu as asas, mas não quis sair.

- Escova já esses dentes, menino!

Pedrinho entrou outra vez no banheiro e, cuidadoso, foi empurrando o tapete de banho em direção à borboleta, para que ela subisse, afinal. Teve medo: não é que fosse grande, mas tinha um corpo do tamanho de suas mãozinhas.

O chão estava molhado e era preciso, de algum jeito, tirá-la dali: se o pai ligasse o chuveiro, não a veria e pode muito que pisasse nela.

- Ai, mamãezinha! Ela bate as asas, mas não voa! - gritava do banheiro, de onde escutava apenas a própria voz.

A borboleta, como se ouvisse seus apelos, que mais pareciam gemidinhos, colocou as patinhas, uma atrás da outra, sobre o canto do tapetinho de plástico. Repousou as asas sobre o corpo e ali ficou.

Maravilhado com a manobra, Pedrinho passou um minuto inteiro olhando a borboleta, em uma quase veneração. De pouco em pouco, curvou o tapetinho de banho, de um jeito que não assustasse a borboleta. Era preciso o quanto antes movê-lo do chão, sem perturbá-la.

- Já peguei, mamãe. Está aqui!, disse extasiado, agora quase sussurrando, enquanto saía do banheiro e entrava na sala. A mãe, porém, continuava a mexer no celular, indiferente.

Pedrinho foi à janela da sala: era dali que se via a paisagem mais bonita. E sempre bate um ventinho, pode ser que ela goste, pensou. E agora ela voaria, sem bater na parede, sem ficar presa aos móveis e coisas da casa.

Enquanto arrumava os braços para fora da janela esperava, serenamente, por algum sinal de vento. Observava a respiração fraca, mas constante, da borboleta: era como a sua. 

O vento veio, afinal. - É agora, borboleta, disse.

Com a mãozinha esquerda segurava o tapetinho. Com a direita, carinhosamente empurrou o animalzinho para fora do tapete e, sem mais, ela estava solta. Mas o vento calou e a borboleta parou no ar, por um segundo.

E se estatelou no chão como uma pedra.

domingo, 3 de abril de 2016

- Não sei, mas às vezes sinto que preciso de uma injeção...
- De quê?
- Oi?
- Injeção de quê? Que remédio, que droga?
- Não sei. Mas é quase uma certeza.

domingo, 27 de março de 2016

Agora eu já sei, vamos deixar a corda ali. Quando eles chegarem, nós diremos que se arrebentou sozinha. Foi o vento. Talvez eles nos deixem voltar da próxima vez. Você sabe como são os adultos, esquecidos dos detalhes; ainda mais quando nós somos o detalhe. Outra vez, você deveria guardar essas coisas no embornal, olha como o sol está caindo; e logo a gente tem que estar na sala de jantar, de mãos, dedos, unhas, dentes limpos.
Nos apartamentos conjugados onde não há silêncio, dentro das salas, em torno aos sofás, uma arquitetura mais sutil e mais delicada sobe do chão. Seu trajeto vai ao teto: é a jaula do bom-senso.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A VITÓRIA DA IMAGEM SOBRE O CONCEITO


No confuso mercado de palavras a imagem venceu. A teoria, em quem depositamos alguma esperança, virou lugar de vaidade e não de reflexão. Nas vitrines foram erigidas as leituras de uma pretensa pós-modernidade, de uma suposta psiquê humana e do fim da (já abatida) razão. Na lente-padrão distribuída em nossa literatura de farmácia a arte, o pensamento livre e a militância foram reduzidos à condição de mercadoria. Hoje militam a favor da corrente e não contra ela, como era usado quando, afinal, "militar" ganhou sentido de radicalização e mudança. E o capital social, como alavanca dos arrivistas e consolo dos desolados, perdeu ares de nobreza sem tornar-se, por isso, melhor. O grito das periferias e dos subúrbios foi tragado pelo equa(igua)lizador do showbusiness e os critérios de eleição da obra de arte foram dispensados por um insidioso reclame de democratização da cultura e atualização dos ouvidos. A cultura foi reduzida à sociedade e a sociedade à cultura. Os debates, que sempre têm um centro de irradiação e outros tantos de recepção, foram desmentidos por intelectuais covardes e pseudointelectuais valentes. Os lugares de diálogo viraram palco de monólogo e onde deveria haver esforço de construção há precarização, pressa e medo. O enfrentamento da vida deu lugar a uma cultura boba e idiota da "positividade" e da "good vibe". Todos são cheffs, coaches, líderes, enólogos. As leituras de fôlego, as críticas mordazes e a regulação de expectativas cognitivas, quando o papo é estética, tecnologia e ciência, deram lugar a uma precária e cabotina cultura da diversidade. Diversidade que, em vez de alavancar reformas estruturais e projetar todas as identidades no mapa social, responde antes ao anseio do próprio neoliberalismo e de uma mesquinha, perversa e triste imagem de sociedade justa. De todas as imagens, de todas que há no mundo, ainda fico com a de Estamira.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

PARA OUVIR LENDO

Esta música terá melhor proveito que teus ouvidos: desce a agulha da vitrola, abandona o cômodo e deixa que toque. Para ninguém. Para que a música prove errados os teóricos, os enamorados e os solitários. Sem ninguém, não há solidão nem multidão em teu cômodo. Nem se incomoda o vazio de ver-se restituído à forma primeira, que jamais conheceu silêncio mas soube do som - primeiro que ninguém - a cor, o corpo e a voz.

Luis Gustavo


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ATÉ O FIM

Quantas vezes Ricardo viera ao consultório, entre constrangido e esperançoso, inventando no caminho uma justificativa para o vício e, mais uma vez, consultava o doutor Joaquim. Assumira, porém, esta verdade universal: um vício não se justifica.

- É preciso parar de uma vez com a Coca-Cola, deu-lhe a ordem de forma agora severa e categórica. 

Enquanto seguia, desolado, no banco de passageiro, a mulher, Mary, dizia a Ricardo: 

- Viste bem? Já não te disse? O médico também, já não disse? A úlcera ainda te mata, Ricardo! É preciso parar de uma vez com a Coca-Cola!

E seguia, a cabeça recostada no vidro fechado, desolado. Os anúncios em outdoors, as placas dos bares, o caminhão de entregas, tudo parecia conspirar pela preservação de uma relação íntima e profunda, que durara toda uma vida.

- De uma vez, viste bem? É preciso!

Ao chegarem em casa, a esposa, cuidadosa e preocupada, foi direto à cozinha ter com a empregada, que preparava o almoço. Era preciso jogar fora as garrafas de vidro, os retornáveis, as latas e demais quinquilharias que uniam, no laço encantado da lembrança, Ricardo e o refrigerante.

O homem, porém, lembrou-se do frigobar que, entre livros, arquivos e pastas, ocupava o escritório de sua casa. Ao abrir a porta, o líquido sagrado, o néctar dos deuses, o tesouro dos tesouros: intacta, reluzente, geladíssima, uma lata de Coca-Cola. Como que transido e designado por uma força maior, muito maior do que sua própria vontade, Ricardo delicadamente removeu a lata e sentou-se diante da mesa. Via por cima dela o retrato das crianças, da esposa e do cachorro.

- Esta será a minha última Coca-Cola - disse, em tom baixo e quase profético, para si mesmo.

Enquanto movia os dedos sobre a superfície de lata, para tirar-lhe o lacre, foi tomado por um sentimento de profunda tristeza, e chorou.

Ouviu o estampido fraco e familiar da tampa da lata e começou a beber, devagar. De repente, sentiu que lhe feria a úlcera. Uma dor incomum, lancinante, nunca imaginada tomou conta de Ricardo. Subiu-lhe sangue pela boca e, desesperado, já não podia respirar. Sabendo que era a morte quem chegava, não lutou contra a dor, não se levantou, não pediu socorro. Resignado e resoluto, com uma força não pensada, apertou entre os dedos a latinha de Coca-Cola e a bebeu. Até o fim.

Luis Gustavo Cardoso

domingo, 7 de fevereiro de 2016

CARNAVAL SEM MÁSCARAS

No centro da casa abandonada
circundada de tão apenas pássaros
automóveis nos atravessam,
demônios procuram vaga em nós.

O carnaval reserva para a rua todas as máscaras
e aos que ficamos em casa
deixa nuas faces, narizes e bocas
que no espelho súbito reconhecemos.

Luis Gustavo

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

E Basta disse:

Que não seja imortal, posto que é carne.
Mas que seja eterno enquanto duro.

Outra vez

Peut-être l’immobilité des choses autour de nous leur est-elle imposée par notre certitude que ce sont elles et non pas d’autres, par l’immobilité de notre pensée en face d’elles. Toujours est-il que, quand je me réveillais ainsi, mon esprit s’agitant pour chercher, sans y réussir, à savoir où j’étais, tout tournait autour de moi dans l’obscurité, les choses, les pays, les années. Mon corps, trop engourdi pour remuer, cherchait, d’après la forme de sa fatigue, à repérer la position de ses membres pour en induire la direction du mur, la place des meubles, pour reconstruire et pour nommer la demeure où il se trouvait. Sa mémoire, la mémoire de ses côtes, de ses genoux, de ses épaules, lui présentait successivement plusieurs des chambres où il avait dormi, tandis qu’autour de lui les murs invisibles, changeant de place selon la forme de la pièce imaginée, tourbillonnaient dans les ténèbres. Et avant même que ma pensée, qui hésitait au seuil des temps et des formes, eût identifié le logis en rapprochant les circonstances, lui, - mon corps, - se rappelait pour chacun le genre du lit, la place des portes, la prise de jour des fenêtres, l’existence d’un couloir, avec la pensée que j’avais en m’y endormant et que je retrouvais au réveil. Mon côté ankylosé, cherchant à deviner son orientation, s’imaginait, par exemple, allongé face au mur dans un grand lit à baldaquin, et aussitôt je me disais : « Tiens, j’ai fini par m’endormir quoique maman ne soit pas venue me dire bonsoir », j’étais à la campagne chez mon grand-père, mort depuis bien des années ; et mon corps, le côté sur lequel je reposais, gardiens fidèles d’un passé que mon esprit n’aurait jamais dû oublier, me rappelaient la flamme de la veilleuse de verre de Bohême, en forme d’urne, suspendue au plafond par des chaînettes, la cheminée en marbre de Sienne, dans ma chambre à coucher de Combray, chez mes grands-parents, en des jours lointains qu’en ce moment je me figurais actuels sans me les représenter exactement, et que je reverrais mieux tout à l’heure quand je serais tout à fait éveillé. 

Marcel Proust, Du côté de chez Swann, 1913.

Descobri.

Pai e mãe, ouro de mina.

Djavan

.movimento dos barcos


Há canções cujo sentido só o desfecho oferece. Sublimes às vezes e por regra tristíssimas.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Mesa de centro, detalhe

Reparei, talvez tarde, termos trocado poucas palavras. Enquanto as valises eram abertas debaixo da mesa de centro, talvez nenhuma. De cima e através do vidro eu via teus pés entrarem no esquadro dessa mesa, esbarrando na valise, como se mesmo esse gesto fosse calculado. E via os dois revólveres, sossegados, em conversa mansa um com o outro, deitados sobre a mesa. E pensei meu deus, o que estamos fazendo?

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

El amenazado

Sabrina enviou-me de Buenos Aires um poema de Borges, que reproduzo aqui. Entre outras coisas, deu-me uma caixa de madeira, uma adaga, uma caneta já sem uso e uma bússola. Disse-me que guardasse na caixa todos os outros objetos. Esse recipiente, talvez ideal para o esquecimento, me disse, é a minha lembrança. Alertou-me, ainda, que na viagem de volta seria procurado por alguém; que não recusasse qualquer presente. O voo de São Paulo para Joinville foi turbulento e mais demorado que de costume. Quando recolhia as bagagens, uma moça se apresentou. Disse ser professora de matemática no Instituto Federal, em Rio do Sul. Trocamos umas quantas palavras, com que aleguei ser também professor, e nos despedimos. Antes de sair, voltou-se para mim ainda uma vez, e me entregou um bilhete, que por alguma razão não publicarei. Escrevi para você enquanto estávamos no céu, me disse, enquanto era embaralhada pelos transeuntes.

Joinville, 26 de janeiro de 2016.
Luis Gustavo


EL AMENAZADO
(Jorge Luis Borges)

Es el amor. Tendré que ocultarme o huir.
Crecen los muros de su cárcel, como en un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado,
pero como siempre es la única.
¿ De qué me servirán mis talismanes:
el ejercicio de las letras,
la vaga erudición
el aprendizaje de las palabras que usó el áspero Norte
para cantar sus mares y sus espadas,
la serena amistad,
las galería de las bibliotecas
las cosas comunes,
los hábitos
el joven amor de mi madre,
la sombra militar de mis muertos,
la noche intemporal,
el sabor del sueño?
Estar contigo o no estar contigo,
es la medida de mi tiempo.
Ya el cántaro se quiebra sobre la fuente,
ya el hombre se levanta a la voz del ave,
ya se han oscurecido los que miran por la ventana,
pero la sombra no ha traído la paz.
Es ya lo se, el amor:
la ansiedad y el alivio de oír tu voz,
la espera y la memoria
el horror de vivir en lo sucesivo.
Es el amor con sus mitologías,
con su pequeñas magias inútiles.
Hay una esquina por la que no me atrevo a pasar.
Ya los ejércitos que cercan, las hordas.
(Esta habitación es irreal; ella no la ha visto)
El nombre de una mujer me delata.
Me duele una mujer en todo el cuerpo.

Chuva, capíulo al.

No dia seguinte eu estava com a maior dor de garganta. Que eu já previra, aliás, do outro lado da rua, quando mirava nosso hotel e a água no asfalto. Do céu as nuvens desciam e se juntavam para formar um enorme zepelim de aço. Ouvi dizer que por esta cidade, certa vez, passara um zepelim. Os moradores devem ter se assustado. Jamais precavidos porém premeditados. E jamais julgados porém julgadores, foram julgados. Penso em Geni e logo em você. Seus cabelos que eu confundira, ao som de um rádio, em noite grande. Seus cabelos se misturavam aos cabelos de outras moças. Com o barulho da chuva, ameaçadora, horas depois, eu jurava não saber de que cor eram seus cabelos. Se loiros, se negros. Se trazia nos cabelos e no pescoço condicionador barato. E uma certa fixação pelas unhas, hoje bem feitas; pelos pés, sempre modelados em cera; e pelo branco de seu corpo, louça movente, líquida, densa. Como a chuva que golpeava os carros lá fora.