segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

As criaturas mais luminosas

As criaturas mais luminosas estão no fundo do mar, no abismo, e podem ser intuídas apenas por olhos cerrados, em sonho, como quem entrevisse o corte laminado e irregular das pedras marinhas, suas deformidades de pedra, e assim as algas, ventosas, as moreias inominadas. Muitas vezes fomos conduzidos ao fundo sem o saber - aliás, jamais o saberemos. Éramos atraídos pelo repuxo das águas que batem na praia, levados alto-mar no espelho do vento, conduzidos para dentro da noite molhada, que não adormece certos peixes estranhos. Esses peixes habitam o meio das profundidades, sempre de olhos bem abertos, desconfiados, reunidos todos em grupos de cardumes transeuntes, quase estáticos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Encontro com Morgana




Também nesta sétima vida topei com Morgana. Sentada, de bermuda jeans, jaqueta amarrada na cintura sobre a blusinha verde. O perfil reto e perpendicular, mirava impassível, do outro lado do portão de embarque, alguma obra de arte. Os seus olhos, entre verde-escuros-castanhos, eram duas setas que alvejavam quadros flamengos que ocupavam toda uma parede do aeroporto de Bruxelas. Não sei bem: mentiras históricas, anjos indecentes, incestos, fratricídio, tintas. Não sei bem o que distraía Morgana de minha presença. Teria notado, talvez, que por duas vezes tive de amarrar os cadarços da minha botina, já vergonhosa e muito usada pelo tempo? Teria notado que meu telefone tocara em uma hora inoportuna, justo quando eu refletia sobre aquele encontro? Não reconhecera quem o acaso lhe pusera ao lado, sob outra face, em outro corpo, vestindo outro hábito, tendo nas mãos o mapa traçado por outros caminhos? Sentado a alguns metros de distância, no entanto, eu adivinhava cada letra de seu nome gravada nas passagens que conduziam a São Paulo. Adivinhava o odor que subia das lezírias que margeiam a costa inglesa de Suffolk, com suas capelas e faróis marcando os caminhos do viajante. Sabia que numa dessas torres as mãos de Morgana haviam tocado, em vão, um antigo astrolábio e os sinos da igreja, cuja música informe e carregada ainda agora ouço bater. Naquela mesma torre de igreja, uma janela deixava entrar o vento que sopra dos canais e, além deles, do Mar do Norte. E de longe senti que as águas-vivas da praia de Scheveningen, n'A Haia, de corpo e tentáculos prateados, rumavam em cardumes extensos e luminosos, pela noite que descia insone, em nossa direção.

Esboço para um retorno pessoal

É por um gesto de inclinação que os astros frios e apagados se aproximam das estrelas. Sua força luminosa e seu calor intenso criam, no escuro da história, uma nova gravidade, engendrada não por dados da natureza, mas por uma necessidade a que, sem ser universal, poder-se-ia chamar de cósmica.

domingo, 11 de junho de 2017

- J'aimerai bien voir par tes yeux.

- Ça marche... Ici. Un cadeau.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Los perros soñolientos

En Chile hay calles donde el árbol es como un paráguas: sus hojas negras abiertas bajo el cielo azur mientras llueve. Dos viejos descubren entre ellos el primer beso y las puntitas de los pies suponen volar. Por cada vaso lleno de agua un edifício brota de la tierra y engendra un pájaro en que todos intuimos la melancolia. En cada corner sé que hay perros soñolientos, pasos acercandose y un rumor del azar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Imagens

Estou preso a algumas imagens. Por exemplo: a de um vira-lata sentado no meio da rua; a de um fio de água que desce pelo meio-fio; a de um berço vazio; os jardins da Chácara do Céu, no alto de Santa Tereza, vistos por quem está na sala maior da casa grande; o quadro de René Magritte em que chovem homens de chapéu-coco. Deslocar-me entre estas imagens e ainda outras, no entanto, não tem me levado a lugar algum. Porque, de fato, estou preso dentro de cada uma delas. E como se tivesse os olhos tapados, feito os animais de carga, não consigo entrever nada da passagem entre uma e outra. Nessa passagem, quem sabe, haverá uma exposição com outras imagens. Talvez haja uma plateia que se diverte com o meu trânsito eternamente repetido. Se bem que, por outro lado, posso variar a sequência das imagens. E sinto até que posso montar a ordem do dia. Ou da noite. Em cada montagem, sei que devo cortar os negativos e, em cada corte, sei que um pouco do negativo se perde. Outro dia, perdi o rabo do cachorro e a água no meio-fio já não tinha onde vazar. De pouco em pouco o meu filme, também, fica roto. O embaço-sobre-azul é como uma cegueira lenta, em que a luz predomina sobre as sombras, perde detalhes e distorce de tal forma a imagem registrada que a torna coisa diversa. Acredito que, se tomasse os negativos em sua primeira forma, ainda intactos, e os comparasse com suas futuras reproduções dia após dia até chegar aos originais que hoje vejo, teria o curta-metragem do envelhecimento. E, muito de perto, muito atenciosamente, quem sabe talvez pudesse ver como a passagem e a sucessão distorcem um mesmo objeto. Quem sonha ou observa jamais intervém no objeto, mas pela prática e pelo artíficio é capaz de perceber mais seus detalhes e distorções. Estou preso a algumas imagens. Por exemplo: a de um cão sentado no canto da rua; a de um berço que balança; os jardins mal cuidados da Chácara do Céu, no alto de Santa Tereza, vistos por quem a eles regressa; o quadro de René Magritte em que chovem homens-chapéu-coco.