Daqui ouço o barulho dos motores. Quem sabe serão os vizinhos. Quem sabe serão os sapos e quem sabe talvez as águas caudalosas de um poço artesiano. Daqui ouço o ronco de um carro na rua. Quem sabe serão meninos. Quem sabe serão os sapos e quem sabe talvez as pernas febris da mulher roçando o corpo de alguém. Daqui ouço a televisão que cai do terraço para espatifar-se no chão. Quem sabe talvez dê a volta no ar. Quem sabe não lhe tenham atirado, não. Quem sabe um tempo volte. Quem sabe os grilos, a malsã saudade, o calor infernal, a chuva no cio, o temporal. Quem sabe.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Os girassóis de Odessa
Entre os girassóis de Odessa
Sei de um perfume que arrepia os campos
Spasiba, Trachimbrod.
Em cada haste na terra fértil
Pétalas, feito moinhos, retêm do vento
O conto inquieto de outros cantos
Spasiba, Trachimbrod.
Sei de uns seios firmes, calmos, brancos
De cujas tetas mornas sabe a chuva
E o leite branco a esperar nas portas
Spasiba, Trachimbrod.
Luis Gustavo
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
pedra marina
E descíamos o recife até a pedra marina. Aquela pedra era um só olho machucado com as batidas do mar, das ondas do mar, de modo de que
olhando de longe se podia ver bem pouco: mas chegando ela dava um buraco de
dois por dois onde cabíamos nós três, e as espumas. Não era preta nem branca,
mas de um cinza tão só. E quem dissesse que a restinga andava por perto,
espiando nossas brincadeiras, de certo não sabia a visão que tínhamos da pedra:
o continente parecia rodar léguas dali, contra o pino do sol detrás da neblina.
Ali onde a maresia é mais densa, o sol quebrava de espessa neblina e quase não
chegava até nós. Eu via os braços dela, as pernas dela, abrigando tudo que era jeito de luz, morando na água. Eternamente.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Assim como descobrimos tudo quando tudo se ausenta, também descobrimos nosso deus quando já não está lá. Neste instante nosso deus é a água.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
FROM THE HEART
A bit of Beatles
or would it be
a beat of bird?
O, let it be!
or would it be
a beat of bird?
O, let it be!
domingo, 26 de outubro de 2014
Sit right here beside me and help me to cry. Do you see that one bird crossing alone darkness to a higher sky? For its feathers are also dark. What it intends to be its onslaught but a fugue from its first color? O, color, you may say, is something else. An allegory. It's not.
área core
Sei que na área core espera-nos uma resposta. Tímida, ansiosa por chegar aos lábios silenciosos. Nada dirá de nossas roupas, de nossos sapatos já gastos. Embora saiba, como nós a sabemos, que tal foi nosso caminho. Que não descansaram os dedos, ainda que apertadas as sacolas em que trazíamos pedras antigas. Adivinhará, imagino, o nome do animal que nos entregou as tais pedras. E aqueles que deixaram sinais no chão, nos galhos e arbustos. Não eram índios; antes era deles a sombra detida sobre quatro patas e pássaros. Ainda naquela cidade, onde os pássaros convidam a um céu de chumbo. Sei que nos espera a resposta, a resposta, a difícil e vidente resposta. Ó lentos, alheios poderes do láudano.
Luis Gustavo
Luis Gustavo
Assinar:
Postagens (Atom)