terça-feira, 2 de setembro de 2014

Teus olhos se me encontram descampado

Teus olhos se me encontram descampado,
o peito nu beirando o céu deserto,
cascos quebrados sobre o chão-carvalho,
me querem nunciar destino incerto.

Teus olhos se me quebram como o orvalho,
qual lacrimoso sal, sal que é deserto,
põem-me no campo feito o espantalho
que esperasse a vida, o sopro eterno.

Já sei que tens um olho marejado
e outro seco de sertão, seco e deserto
- pois contra toda sorte o teu olhar é terno -

de mim não sei se águas hai escapado,
de mim sertões não sei melhor desperto,
com tantos sóis não sei como hai inverno.

Luis Gustavo Cardoso

A mão

Depois de tantos esforços, ei-la cansada: a mão.
Contra o branco do papel, carvão.
Contra o braço que lhe deu razão.
Contra o beco que há na boca: não.
Contra toda a natureza, a mão.

Depois de feita a criação.
Do verbo mais concreto.
Da sílaba perfeita destacada da amplidão.
A rima rude.
A rima rude então.

Para dizer à mulher que o amor chegou
os dois dedos da mão
o médio e o anular.

A flor-desolação
desabrochará quando haja umidade
e não sol.

Luis Gustavo Cardoso

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Carta para Basta

Faz tempo não lhe escrevo, Basta. De longe todo tipo de besteira é motivo pra eu me lembrar de você. Outro dia o taxista fez uma curva fechada, procurei o puta-que-pariu e nada: lembrei de você. Quando Errol Garner começou a tocar "My funny Valentine" numa gravação de 63 no canal Curta!: lembrei de você. Dizem que o amor acabou. Outra vez em outra cidade, percebo que é costume do amor correr o meio-fio e entrar pela boca de lobo mais perto de casa. Da saída de incêndio do edifício vejo os travecos, nossos novos malandros, de navalha em punho: assaltando o coração de outro macho. Recordo aquele nosso amigo que se dizia "malandro", o rei da brasilidade. Um dia ele chamou de "tambores de Angola" o som que vinha vizinho do nosso campus. Que nada, eram só as nossas pretas preparando o rango da moçada. Vestido de algodão sobre o jeans desbotado e um canto rouco, rouco de tanto trabalho. Recordei também o cretino que veio nos encher o saco durante uma festa da faculdade, falando em Scott Fitzgerald. Recordei então todos os cretinos, anotados e não anotados em nosso caderninho, e tive uma saudade imensa de você. De pouco em pouco vou esquecendo o lirismo. Acredito mesmo que esqueci como se escrevem aquelas coisas todas. Mas ainda acredito que a palavra amor seja apenas um anagrama, um anatema para tantos outros buracos de lobo por onde invariavelmente corremos, seguindo o meio-fio. Basta, você faz muita falta: seus olhos bastos de tão mansos e uma cadeira vazia.

Luis Gustavo

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Brevidades

Céu de chumbo na capital francana,
chuva fina e café forte.

Lembrei agora de umas brevidades
que jamais pude morder outra vez:
brevidades.

luis gustavo

terça-feira, 6 de maio de 2014

Na cidade

No começo te queria
como a criança quer
a sombra intocável.

Nas vitrines luminosas
tuas vestes dispersas
- saias, sapatos, meias -
denunciavam a solidão
de um manequim sem corpo.

Depois comecei a querer-te
com as mãos, com os dedos...

por acaso rocei teus pés
numa loja da quinta avenida
e um coração batia forte.

Tarso de louça fina
trincada no vinco entre dedos
entre unhas e a imagem pétrea
das falanges.

Mas que ferve é buscar-te
com boca, com língua, com dentes
à procura de espaços ausentes
na cidade onde tudo é desejo.

luis gustavo cardoso





segunda-feira, 5 de maio de 2014

Na cidade

Quem quer que me quisesse, quem sabe,
mais que à película fina e à férrea face,
quisera Deus, soubesse o que há no centro

que habita uma cidade em meu corpo
de ruas e avenidas por onde a gravidade
convida a pássaros de chumbo e solidão.

luis gustavo cardoso