domingo, 9 de outubro de 2016

Entre o farol e a neblina

Antes de ser acordado pelo relógio, dobrei uma esquina. E atrás da neblina baixa e densa, você sorria: os olhos abertos, escuros e com um brilho muito forte. São, quem sabe, os faróis de um carro - pensei. Subindo o meio-fio, vi seu rosto com clareza: branco, molhado e ainda sorrindo. Mas não era um sorriso dado. Era antes uma marca de dentes, um sorriso armado e eterno. Assustei-me. Toda essa neblina - disse a mim mesmo - bem podia ser as águas do trópico de sal, anos atrás. Qualquer coisa de molhada, espessa e de cortina. Qualquer coisa meio silenciada e meio dita. Um rumor sereno e incômodo. Bem podia ser, esta rua - como este meio-fio - os fechos da fazenda marinha, em cuja portinhola eu botava as cartas pra você. E a sua aparição bem podia ser a mesma: fugaz, derradeira, finita. E os olhos que brilhavam, faróis de um carro, bem podiam ser outros faróis. Os que se pescam em noite escura, fora da superfície, no continente. Na condução de embarcações pela baía. Na guarida de almas humanas desembarcadas, habitantes de um naufrágio. Ou ainda na proteção dos guardas do próprio farol, munidos de vodka e um radinho de pilha. Em tudo a sua aparição me parecia coisa antiga, datada. Como uma carta que eu deixasse de postar e, incomodada, se insinuasse para fora das gavetas. Eu que sempre quis colher as camélias do sonho. Que sempre quis sonhá-las tanto, com tal força e convicção que pudesse impô-las à realidade. Eu, que aprendi as manhas do sonho, que inventei as regras do jogo, não pude resistir à vigília. Veio o som do relógio, a luz da manhã e dissolveu, como em todos os domingos, os faróis, as ondas, a neblina espessa, tudo.

Gustavo

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Omoplatas

O presente grego que me deste era antes alexandrino
e quando viravas de costas eu sabia que a imagem de um anjo
abriria suas asas com a maciez das omoplatas
para que cuidasses do varal.

Para dizer-te a verdade não foi bem o encalacrado coração,
mas o invólucro que o trazia, aquilo que me surpreendeu;
e sabes bem, foi antes a fita;
e antes dela o nó perfeito.

Jamais puseste as mãos úmidas em meu samba-canção
como as colocavas sob o sol daquela tarde,
mas em meu peito sempre as tinhas
iluminadas de longe por um riso de Monalisa.

A estas altas horas da noite sei que estás reclinada
com um livro e pelo menos duas xícaras de café
e alguma cartografia já borrada por guerras.

Mas antes de tais guerras sei também que nossos destinos
só puderam cruzar-se e perder-se porque a borra mesmo
do café confunde em todos nós os nossos caminhos,
feito o escrito dantesco:

Io non so ben ridir com'i' v'intrai,
tant'era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Lo que tienes

No me encantan tus ojos porque ya es mañana
sino porqué son oscuros y duros como la piedra.

No me dicen tus labios lo que dice el viento
porque de tus labios salen palabras y sangre.

No te doy oídos, callado, porque tienes espíritu
sino porque tu cuerpo ocupa un espacio perfecto.

No te quiero jamás de un modo abstracto
porque cuando sueño contigo tienes carne
y traes carne y sangre y piedra al sueño.

Tu tienes el olor que tienes, el paso que tienes,
el hálito que tienes y todo lo demás.

Y todo lo demás está cerrado.

Luis Gustavo Cardoso

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Billie Jean

Pensei nesta gravação enquanto atravessava o viaduto Santa Efigênia.


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Antiguidades ou cacos modernos

Eu que sempre andei com gatos persas, com o mesmo vigor desconfiei dos siameses. Sobretudo quando andavam aos pares e, simétricos, descreviam no caminhar diante de mim diagonais. Era assim: bastava que eu entrasse na sala e os siameses, cada qual, deslocavam-se dos cantos superiores esquerdo e direito, em trajetória diagonal. Quando cruzavam-se no meio do cômodo, apenas eu os notava. A família assistia à televisão.

Era tarde já e o acordeon do avô estava sobre o armário de seu quarto. Meu avô dormia. E o cheiro da velhice anunciava um silêncio opaco, que sua respiração agravava ainda mais. A cama, o colchão, o criado-mudo, todas as coisas ali eram velhas, como meu avô. Nas venezianas de ferro oxidado o vento era filtrado. Desconfio que trazia menos notícias de fora do que levava as de dentro de seu quarto: os arredores, as hortaliças, os jardins, as fazendas e o universo todo talvez desconfiassem, na entrada da noite, da velhice e do cheiro de meu avô.

Algumas vezes acordei com a cama molhada e, pensando bem e sem pudor, o calor do mijo trazia-me certa paz e uma forma curiosa de afeto. Algumas vezes dormia com os jeans apertados e podia resgatar, ainda mais, a infância presente, no futuro perdida. Algumas vezes, no entanto, de calcinha e camisola, eu carregava para a cama as formigas tanajuras que recolhera durante a tarde; acendia fogo nas cascas de laranja, que minha intuição adivinhava incensadas; e passava frio.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

FODA-SE

Tenho apertado o botão do FODA-SE tantas vezes que acho que ele está quebrado.

sábado, 2 de julho de 2016

RECONTANDO UMA HISTÓRIA QUE OUVI

Um rei persa era, justamente ele, o sujeito mais melancólico de todo o reinado. Aborrecido com tanta tristeza, despachou seus capangas por toda a península a fim de achar alguém que fosse realmente feliz. Durante meses não acharam ninguém. Mas eis que encontram no meio do deserto um pastor, que mais lhes parecia um pobre diabo, arrebanhando suas cabras. Perguntam-lhe:

- És feliz?
- Sim, sou feliz.
- Do que precisas para ser feliz?
- De nada. Não preciso de nada.
- Então faz favor de emprestar tua camisa ao rei, para que ele também seja feliz.
- Não tenho, nem preciso de camisa.