segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

E Basta disse:

Que não seja imortal, posto que é carne.
Mas que seja eterno enquanto duro.

Outra vez

Peut-être l’immobilité des choses autour de nous leur est-elle imposée par notre certitude que ce sont elles et non pas d’autres, par l’immobilité de notre pensée en face d’elles. Toujours est-il que, quand je me réveillais ainsi, mon esprit s’agitant pour chercher, sans y réussir, à savoir où j’étais, tout tournait autour de moi dans l’obscurité, les choses, les pays, les années. Mon corps, trop engourdi pour remuer, cherchait, d’après la forme de sa fatigue, à repérer la position de ses membres pour en induire la direction du mur, la place des meubles, pour reconstruire et pour nommer la demeure où il se trouvait. Sa mémoire, la mémoire de ses côtes, de ses genoux, de ses épaules, lui présentait successivement plusieurs des chambres où il avait dormi, tandis qu’autour de lui les murs invisibles, changeant de place selon la forme de la pièce imaginée, tourbillonnaient dans les ténèbres. Et avant même que ma pensée, qui hésitait au seuil des temps et des formes, eût identifié le logis en rapprochant les circonstances, lui, - mon corps, - se rappelait pour chacun le genre du lit, la place des portes, la prise de jour des fenêtres, l’existence d’un couloir, avec la pensée que j’avais en m’y endormant et que je retrouvais au réveil. Mon côté ankylosé, cherchant à deviner son orientation, s’imaginait, par exemple, allongé face au mur dans un grand lit à baldaquin, et aussitôt je me disais : « Tiens, j’ai fini par m’endormir quoique maman ne soit pas venue me dire bonsoir », j’étais à la campagne chez mon grand-père, mort depuis bien des années ; et mon corps, le côté sur lequel je reposais, gardiens fidèles d’un passé que mon esprit n’aurait jamais dû oublier, me rappelaient la flamme de la veilleuse de verre de Bohême, en forme d’urne, suspendue au plafond par des chaînettes, la cheminée en marbre de Sienne, dans ma chambre à coucher de Combray, chez mes grands-parents, en des jours lointains qu’en ce moment je me figurais actuels sans me les représenter exactement, et que je reverrais mieux tout à l’heure quand je serais tout à fait éveillé. 

Marcel Proust, Du côté de chez Swann, 1913.

.movimento dos barcos


Há canções cujo sentido só o desfecho oferece. Sublimes às vezes e por regra tristíssimas.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Mesa de centro, detalhe

Reparei, talvez tarde, termos trocado poucas palavras. Enquanto as valises eram abertas debaixo da mesa de centro, talvez nenhuma. De cima e através do vidro eu via teus pés entrarem no esquadro dessa mesa, esbarrando na valise, como se mesmo esse gesto fosse calculado. E via os dois revólveres, sossegados, em conversa mansa um com o outro, deitados sobre a mesa. E pensei meu deus, o que estamos fazendo?

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

El amenazado

Sabrina enviou-me de Buenos Aires um poema de Borges, que reproduzo aqui. Entre outras coisas, deu-me uma caixa de madeira, uma adaga, uma caneta já sem uso e uma bússola. Disse-me que guardasse na caixa todos os outros objetos. Esse recipiente, talvez ideal para o esquecimento, me disse, é a minha lembrança. Alertou-me, ainda, que na viagem de volta seria procurado por alguém; que não recusasse qualquer presente. O voo de São Paulo para Joinville foi turbulento e mais demorado que de costume. Quando recolhia as bagagens, uma moça se apresentou. Disse ser professora de matemática no Instituto Federal, em Rio do Sul. Trocamos umas quantas palavras, com que aleguei ser também professor, e nos despedimos. Antes de sair, voltou-se para mim ainda uma vez, e me entregou um bilhete, que por alguma razão não publicarei. Escrevi para você enquanto estávamos no céu, me disse, enquanto era embaralhada pelos transeuntes.

Joinville, 26 de janeiro de 2016.
Luis Gustavo


EL AMENAZADO
(Jorge Luis Borges)

Es el amor. Tendré que ocultarme o huir.
Crecen los muros de su cárcel, como en un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado,
pero como siempre es la única.
¿ De qué me servirán mis talismanes:
el ejercicio de las letras,
la vaga erudición
el aprendizaje de las palabras que usó el áspero Norte
para cantar sus mares y sus espadas,
la serena amistad,
las galería de las bibliotecas
las cosas comunes,
los hábitos
el joven amor de mi madre,
la sombra militar de mis muertos,
la noche intemporal,
el sabor del sueño?
Estar contigo o no estar contigo,
es la medida de mi tiempo.
Ya el cántaro se quiebra sobre la fuente,
ya el hombre se levanta a la voz del ave,
ya se han oscurecido los que miran por la ventana,
pero la sombra no ha traído la paz.
Es ya lo se, el amor:
la ansiedad y el alivio de oír tu voz,
la espera y la memoria
el horror de vivir en lo sucesivo.
Es el amor con sus mitologías,
con su pequeñas magias inútiles.
Hay una esquina por la que no me atrevo a pasar.
Ya los ejércitos que cercan, las hordas.
(Esta habitación es irreal; ella no la ha visto)
El nombre de una mujer me delata.
Me duele una mujer en todo el cuerpo.

Chuva, capíulo al.

No dia seguinte eu estava com a maior dor de garganta. Que eu já previra, aliás, do outro lado da rua, quando mirava nosso hotel e a água no asfalto. Do céu as nuvens desciam e se juntavam para formar um enorme zepelim de aço. Ouvi dizer que por esta cidade, certa vez, passara um zepelim. Os moradores devem ter se assustado. Jamais precavidos porém premeditados. E jamais julgados porém julgadores, foram julgados. Penso em Geni e logo em você. Seus cabelos que eu confundira, ao som de um rádio, em noite grande. Seus cabelos se misturavam aos cabelos de outras moças. Com o barulho da chuva, ameaçadora, horas depois, eu jurava não saber de que cor eram seus cabelos. Se loiros, se negros. Se trazia nos cabelos e no pescoço condicionador barato. E uma certa fixação pelas unhas, hoje bem feitas; pelos pés, sempre modelados em cera; e pelo branco de seu corpo, louça movente, líquida, densa. Como a chuva que golpeava os carros lá fora.