terça-feira, 11 de agosto de 2015
Que a luz vai se apagar
Que o universo em vez de explodir - como eles disseram um tempo atrás - agora vai se apagar. Sem mistério e sem alarde. Cientistas do Centro Internacional de Investigações Radioastronômicas da Austrália descobriram que o universo produz duas vezes menos energia do que dois bilhões de anos atrás. Em nossa escala finita, dois bi atrás são muita coisa; mas dois bi à frente não são nada, que isso! Estamos a um passo do futuro. Deu no rádio, na tv e na internet. Apocalípticos, religiosos e ambientalistas ficaram de queixo caído. Não será o dragão-de-sete-cabeças nem a emissão de gás carbono; não será o chicote da besta nem o derretimento do gelo. No imediato horizonte mediato - dê uma espiadinha pela janela - as luzes fora do quarto logo vão se acabar; e não será por conta da má gestão de hidrelétricas nem pela falta de água. Não será de sede, não será de fome, não será de raiva ou de amor. Nem sozinhos. Os bichos todos estamos na mesma barca. Ativistas, caçadores de prosopopeias e causas sem fim, defensores de um direito nato, eterno: vós também estais em extinção. E o que mais castiga a cabeça humana: a culpa não é de ninguém. Boa noite, tchau.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Nota sobre a filosofia
A filosofia não nos salva da dor, do tempo ruim, da falta de dinheiro. Até pelo contrário, em certa dose concentrada, talvez ela seja o botão vermelho de condenação, talvez ela mesma arraste todas essas pragas até nós. Mas há, com certeza, um mal de que a filosofia nos livra: o da mediocridade.
Luis Gustavo
Luis Gustavo
segunda-feira, 29 de junho de 2015
O homem de linho branco e panamá
Impecável, o homem de linho branco e panamá dobrou a esquina e subiu a rua pedregosa. Não digo que cambaleasse por causa das pedras, nem é certo que levasse na mão esquerda uma garrafa de cachaça: os de Santa Cruz sabiam seu jeito de andar. Mole e desajeitado, não surpreendia que levasse tanto tempo até a capelinha, no alto do morro. Uma fazenda e meia de pedras e pronto, era lá. Mas esses poucos metros, quanto mais subia, mais custava ganhar. Não digo que fosse pesado, nem é certo que fosse já velho: os de Santa Cruz ignoravam sua idade e seu nome. Mas viam-no, todas as tardes, dobrar a mesma esquina e subir a mesma rua pedregosa. Que um homem jovem exagere na boemia e volte tarde pra casa, que um bêbado contumaz refaça o círculo de seu vício dia após dia sem mudança de roteiro, tudo é coisa que se entende e se espera. O que não se espera nem se entende é que, sem beber nem fumar, sem ser gordo nem magro, nem velho nem moço, um homem ponha-se cotidiano, precisamente no mesmo horário - o das novelas vespertinas - a subir a mesma rua pedregosa, em direção à mesma igreja, sem que nunca lá chegue. Quem o visse de longe, quem estivesse em nosso barraco, no morro de cá, veria o que vejo: impecável, um homem de linho branco e panamá, as pernas em movimento, como que disjuntas, a subir eternamente, em procissão solitária, pela rua pedregosa das tardes sem saída.
Luis Gustavo
Luis Gustavo
terça-feira, 2 de junho de 2015
Antes da viagem
Será quem me vêm buscar os anjos
amanhã mesmo?
Que idiomas devo decorar
na última noite de sono
- que sons, que letras, que gestos -
diante da passagem final?
Afinal, todos vamos
jamais acostumados à ideia
e nunca de mãos dadas
todos vamos embora.
Mas que idioma, pergunto
se devo esboçar algo que
pareça um riso
ou devo levar o rosto sério.
Virão graves e em silêncio
ou será o arrebatamento
como estar no pátio escolar
entre o banzo infinito
frio e indiferente
de crianças que nem pensam
no sino final?
Luis Gustavo Cardoso
amanhã mesmo?
Que idiomas devo decorar
na última noite de sono
- que sons, que letras, que gestos -
diante da passagem final?
Afinal, todos vamos
jamais acostumados à ideia
e nunca de mãos dadas
todos vamos embora.
Mas que idioma, pergunto
se devo esboçar algo que
pareça um riso
ou devo levar o rosto sério.
Virão graves e em silêncio
ou será o arrebatamento
como estar no pátio escolar
entre o banzo infinito
frio e indiferente
de crianças que nem pensam
no sino final?
Luis Gustavo Cardoso
quarta-feira, 27 de maio de 2015
CANTILENA PARA UM SONO BOM
Para o professor Rondon Rodrigues Ferreira
Na verdade, ficou muito bom o seu desenho. Só lhe escapou o riso que, não sei bem, é algo que está na cabeça de quem o conheceu. Talvez a mesma coisa se tivesse passado com a Monalisa, de Leonardo. Não podendo reproduzir o riso da memória do mensageiro, e nem de outro retrato que lhe servisse, o riso ficou por isso mesmo. Dizem que o risível está na altura do chão. É algo que coça, e se chega por baixo do humor. Você sabe, não é do humor baixo. Mas daquele bom, do atrabiliário, antigo, humor fino feito papo-de-anjo. Mas vamos lá, que é hora de dormir. E toda noite a gente dorme com o riso que pode ter.
Luis Gustavo
segunda-feira, 25 de maio de 2015
O HOMEM SIMPLÓRIO
A simplicidade, essa solteirona risonha e corada que se encontra em qualquer canto do Brasil, tornou-se uma espécie de reguladora dos padrões morais camponeses que se meteram, desde cedo, em nossas cidades. A mudança de valores rurais para o meio urbano trouxe, na sacola do caipira, uma modalidade curiosa do que ele chama de "humildade". Estou falando no caipira mas, é óbvio, poderíamos tratar assim de muitos camponeses. É o que acontece com personagens como FIÓDOR PAVLÓVITCH KARAMÁZOV, de DOSTOIÉVSKI. A "humildade" camponesa é motivo de orgulho, o que pode soar um contrassenso. Mas é assim mesmo: o homem simplório e humilde tem orgulho de sê-lo, a escola da vida lhe deu a lição e, se por acaso topa com alguém que detém detalhes mais acurados sobre determinado assunto, tirados, além da experiência, do esforço lógico sistemático, seu orgulho pode ser facilmente ferido. E então retruca: ora, mas resumindo é isto que você quer dizer..., sem atinar que, certas coisas, se resumidas na forma, são reduzidas no conteúdo. Como ocorre com o velho KARAMÁZOV, o nosso homem tem orgulho de ser, mais do que simples, simplório. Mas há nele, sim, uma complexidade, talhada tosca em madeira antiga, uma complexidade humana difícil de apreender e que só pode ser mesmo objeto de um grande escultor e de uma grande literatura: o pendor para ofender-se. O homem que se ofende fácil demais é porque é orgulhoso demais, simplório demais e difícil demais: mais difícil, mais simplório e mais orgulhoso do que ele próprio imagina.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Rua Júlio Otoni
Esta noite sonhei que estava na casa da rua Júlio Otoni. A decoração interna e mesmo a tinta nas paredes eram outras. Em torno de uma mesa comprida H. e T. recebiam convidados. Ceiávamos. Quando me percebi entre eles, pedi-lhes desculpa: Não sei bem por que fui embora. Eles riam. E disseram: Já sabíamos. Havia em tudo uma restrição, uma vigilância, uma palavra não dita mas de todos - quem sabe até de mim mesmo - conhecida. No sonho adormeci e sonhei. Cheguei a crer que a passagem na casa de H. e T. fosse apenas um sonho, mas abri os olhos e ainda estava lá. Desta vez, estirado no sofá da sala de meus hospedeiros. Então me chamaram, da biblioteca. E o silêncio, e o medo, e a restrição, e o ambiente de quatro anos atrás se restituíram com tamanha realidade que o sonho, não a suportando, se desfez.
LUIS GUSTAVO
LUIS GUSTAVO
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