segunda-feira, 25 de maio de 2015

O HOMEM SIMPLÓRIO




A simplicidade, essa solteirona risonha e corada que se encontra em qualquer canto do Brasil, tornou-se uma espécie de reguladora dos padrões morais camponeses que se meteram, desde cedo, em nossas cidades. A mudança de valores rurais para o meio urbano trouxe, na sacola do caipira, uma modalidade curiosa do que ele chama de "humildade". Estou falando no caipira mas, é óbvio, poderíamos tratar assim de muitos camponeses. É o que acontece com personagens como FIÓDOR PAVLÓVITCH KARAMÁZOV, de DOSTOIÉVSKI. A "humildade" camponesa é motivo de orgulho, o que pode soar um contrassenso. Mas é assim mesmo: o homem simplório e humilde tem orgulho de sê-lo, a escola da vida lhe deu a lição e, se por acaso topa com alguém que detém detalhes mais acurados sobre determinado assunto, tirados, além da experiência, do esforço lógico sistemático, seu orgulho pode ser facilmente ferido. E então retruca: ora, mas resumindo é isto que você quer dizer..., sem atinar que, certas coisas, se resumidas na forma, são reduzidas no conteúdo. Como ocorre com o velho KARAMÁZOV, o nosso homem tem orgulho de ser, mais do que simples, simplório. Mas há nele, sim, uma complexidade, talhada tosca em madeira antiga, uma complexidade humana difícil de apreender e que só pode ser mesmo objeto de um grande escultor e de uma grande literatura: o pendor para ofender-se. O homem que se ofende fácil demais é porque é orgulhoso demais, simplório  demais e difícil demais: mais difícil, mais simplório e mais orgulhoso do que ele próprio imagina.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Rua Júlio Otoni

Esta noite sonhei que estava na casa da rua Júlio Otoni. A decoração interna e mesmo a tinta nas paredes eram outras. Em torno de uma mesa comprida H. e T. recebiam convidados. Ceiávamos. Quando me percebi entre eles, pedi-lhes desculpa: Não sei bem por que fui embora. Eles riam. E disseram: Já sabíamos. Havia em tudo uma restrição, uma vigilância, uma palavra não dita mas de todos - quem sabe até de mim mesmo - conhecida. No sonho adormeci e sonhei. Cheguei a crer que a passagem na casa de H. e T. fosse apenas um sonho, mas abri os olhos e ainda estava lá. Desta vez, estirado no sofá da sala de meus hospedeiros. Então me chamaram, da biblioteca. E o silêncio, e o medo, e a restrição, e o ambiente de quatro anos atrás se restituíram com tamanha realidade que o sonho, não a suportando, se desfez.

LUIS GUSTAVO

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sobre estantes e livros

Quantas estantes são precisas para caber um homem dentro? Para que ele se encaixe, será antes necessário remover os livros que, um dia, couberam no homem. Se é que couberam. Sem mencionar os livros não lidos, cheirando a velhos, cheirando a novos; os livros-presente, os livros-estantes, os livros que pedem abertura e ofício. Os livros ausentes, os que couberam no homem e os que quase não couberam, também contam? Devem ser removidos das estantes os livros emprestados? Os livros que levaram recados de amor, os livros que trouxeram tais recados, devem também remover-se? Difícil é saber que fazer com os livros habitados, há séculos - quem sabe - por traças e aranhas diminutas. Centenas de gerações penduradas, talvez, numa só vírgula impressa em relevo. Os livros-casa de insetos e incêndios, de cuja posse sabem melhor os insetos e o próprio fogo. Os livros de quina, os de cabeceira, os que servem de calço de mesa, os borrados de café e de tinta. Os livros que nunca saíram de seus lugares, e se integraram às paredes, e foram parar no bucho orgânico da casa. Os livros perdidos no sótão, no sofá da sala. Os livros que brigaram demais entre si: Tolstói versus Dostoiévksi, Brecht versus Stanislavksi, crítica versus criação. Mas ai dos livros desejados, é possível removê-los? Talvez se não os excluísse: quem sabe o homem se tornasse um livro mesmo? Um livro-sujeito, um livro-pensante, um livro com pernas, mãos, estômago, pulmão. Ai então.

LUIS GUSTAVO

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

02h02

Daqui ouço o barulho dos motores. Quem sabe serão os vizinhos. Quem sabe serão os sapos e quem sabe talvez as águas caudalosas de um poço artesiano. Daqui ouço o ronco de um carro na rua. Quem sabe serão meninos. Quem sabe serão os sapos e quem sabe talvez as pernas febris da mulher roçando o corpo de alguém. Daqui ouço a televisão que cai do terraço para espatifar-se no chão. Quem sabe talvez dê a volta no ar. Quem sabe não lhe tenham atirado, não. Quem sabe um tempo volte. Quem sabe os grilos, a malsã saudade, o calor infernal, a chuva no cio, o temporal. Quem sabe.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Os girassóis de Odessa

Quando a lua abre caminho
Entre os girassóis de Odessa
Sei de um perfume que arrepia os campos
Spasiba, Trachimbrod.

Em cada haste na terra fértil
Pétalas, feito moinhos, retêm do vento
O conto inquieto de outros cantos
Spasiba, Trachimbrod.

Sei de uns seios firmes, calmos, brancos
De cujas tetas mornas sabe a chuva
E o leite branco a esperar nas portas
Spasiba, Trachimbrod.

Luis Gustavo

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

pedra marina

E descíamos o recife até a pedra marina. Aquela pedra era um só olho machucado com as batidas do mar, das ondas do mar, de modo de que olhando de longe se podia ver bem pouco: mas chegando ela dava um buraco de dois por dois onde cabíamos nós três, e as espumas. Não era preta nem branca, mas de um cinza tão só. E quem dissesse que a restinga andava por perto, espiando nossas brincadeiras, de certo não sabia a visão que tínhamos da pedra: o continente parecia rodar léguas dali, contra o pino do sol detrás da neblina. Ali onde a maresia é mais densa, o sol quebrava de espessa neblina e quase não chegava até nós. Eu via os braços dela, as pernas dela, abrigando tudo que era jeito de luz, morando na água. Eternamente.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Assim como descobrimos tudo quando tudo se ausenta, também descobrimos nosso deus quando já não está lá. Neste instante nosso deus é a água.