quinta-feira, 24 de setembro de 2015
24 de setembro
E nós viramos. Não sei bem se minério, se bichos, se humanos. Mas viramos. Não sei bem se a face, se o corpo, se do avesso. Viramos. Não sei bem se o copo, se as mágoas, se o rosto. Nós viramos. Não sei bem se humanos, se as mãos, se humanos. Sobre a cama, se de lado. Se a bituca do cigarro. Mas viramos. As gavetas, as estantes, as saudades, as mentiras. Nós viramos. O tempo quando virava nós viramos. A ampulheta, muitas vezes; e outras tantas não viramos. E mentimos. Com a alma pendurada nos cabides nossos corpos nós viramos. Como as almas revoltosas no assoalho vão passando. Viramos a cachaça, o calendário, o ano. Mas a página, não. A página tem verso em branco. E perversos, nós viramos, desviramos. O que há de proibido - tecer no silêncio outro tempo. Nós fizemos. Dois a um. Quantos nós nós nos viramos.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
DESCREVE O QUE ERA NAQUELE TEMPO A CIDADE DA BAHIA
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,
Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.
Gregório de Matos
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,
Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.
Gregório de Matos
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
O jardim de delícias terrenas, de Hieronymus Bosch
No site Khan Academy, comentários que ajudam a entender a pintura de Bosch. Pode-se escolher pelas legendas em português, no canto direito inferior do vídeo, em subtitles, options, Portuguese.
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
O ANO TODO
Janeiro,
já sinto
o calor fevereiro
das águas de março.
Abril, nunca minto
em coisas de amor.
É maio, porém, o
mês dos cortejos.
De junho o azul
impossível, a cor
de uns olhos que
em julho desejo.
Agosto é augusto,
preserve-me a vida
nos braços da virgem.
Setembro, se lembro...
Outubro, outrora,
outro dia ainda
falamos de amor.
Novembro, já quase
nos campos pintados.
No fundo da caixa,
depois de outro laço,
na area core do abraço:
dezembro, dezembro.
o calor fevereiro
das águas de março.
Abril, nunca minto
em coisas de amor.
É maio, porém, o
mês dos cortejos.
De junho o azul
impossível, a cor
de uns olhos que
em julho desejo.
Agosto é augusto,
preserve-me a vida
nos braços da virgem.
Setembro, se lembro...
Outubro, outrora,
outro dia ainda
falamos de amor.
Novembro, já quase
nos campos pintados.
No fundo da caixa,
depois de outro laço,
na area core do abraço:
dezembro, dezembro.
domingo, 23 de agosto de 2015
Já em agosto
Cette chose qu'on appelle 'exquise'.
Disse a mim mesmo que não voltaria ao corner onde vivíamos tropeçando um no outro. A lama na poça d'água, o lodo nas pedras antigas e o cheiro de umidade da rua da escola eram como que um aviso - e um ímã - para a queda. Ainda assim, os transeuntes passavam por ali. Eu mesmo, antes de topar com você, já tinha reparado nos óculos, nos olhos escuros, nos cabelos e nos dentes tão brancos. Recendidos na quase-noite, cheirando à hortelã que meu avô plantava, entre hortaliças do quintal de sua casa. Sobretudo quando a chuva varria leve nossos quintais: aí então o cheiro da hortelã atravessava o portal enferrujado para tomar todo o bairro. Chego a pensar que esse odor tenha conhecido ou pelo menos compartilhado da umidade das pedras daqui. Estamos longe de tudo, onde quer que estejamos. Se de repente chovesse, talvez pudesse associar o branco de seus dentes com os perfumes que meu avô, talvez o soubesse, fabricava. Sei que venho de uma linhagem de homens tiranos e mulheres inquietas. Mas eu sempre desconfiei que a tirania fosse um vislumbre estético da vida, e que a inquietude fosse uma desconfiança da passagem dela. Desligadas, todas essas coisas se misturam num borrão de nuvens. Como a barra da saia da chuva sobre a terra, vista de cima, de onde se agitam os cordões que nos colocaram, certo dia, na mesma esquina.
Disse a mim mesmo que não voltaria ao corner onde vivíamos tropeçando um no outro. A lama na poça d'água, o lodo nas pedras antigas e o cheiro de umidade da rua da escola eram como que um aviso - e um ímã - para a queda. Ainda assim, os transeuntes passavam por ali. Eu mesmo, antes de topar com você, já tinha reparado nos óculos, nos olhos escuros, nos cabelos e nos dentes tão brancos. Recendidos na quase-noite, cheirando à hortelã que meu avô plantava, entre hortaliças do quintal de sua casa. Sobretudo quando a chuva varria leve nossos quintais: aí então o cheiro da hortelã atravessava o portal enferrujado para tomar todo o bairro. Chego a pensar que esse odor tenha conhecido ou pelo menos compartilhado da umidade das pedras daqui. Estamos longe de tudo, onde quer que estejamos. Se de repente chovesse, talvez pudesse associar o branco de seus dentes com os perfumes que meu avô, talvez o soubesse, fabricava. Sei que venho de uma linhagem de homens tiranos e mulheres inquietas. Mas eu sempre desconfiei que a tirania fosse um vislumbre estético da vida, e que a inquietude fosse uma desconfiança da passagem dela. Desligadas, todas essas coisas se misturam num borrão de nuvens. Como a barra da saia da chuva sobre a terra, vista de cima, de onde se agitam os cordões que nos colocaram, certo dia, na mesma esquina.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Que a luz vai se apagar
Que o universo em vez de explodir - como eles disseram um tempo atrás - agora vai se apagar. Sem mistério e sem alarde. Cientistas do Centro Internacional de Investigações Radioastronômicas da Austrália descobriram que o universo produz duas vezes menos energia do que dois bilhões de anos atrás. Em nossa escala finita, dois bi atrás são muita coisa; mas dois bi à frente não são nada, que isso! Estamos a um passo do futuro. Deu no rádio, na tv e na internet. Apocalípticos, religiosos e ambientalistas ficaram de queixo caído. Não será o dragão-de-sete-cabeças nem a emissão de gás carbono; não será o chicote da besta nem o derretimento do gelo. No imediato horizonte mediato - dê uma espiadinha pela janela - as luzes fora do quarto logo vão se acabar; e não será por conta da má gestão de hidrelétricas nem pela falta de água. Não será de sede, não será de fome, não será de raiva ou de amor. Nem sozinhos. Os bichos todos estamos na mesma barca. Ativistas, caçadores de prosopopeias e causas sem fim, defensores de um direito nato, eterno: vós também estais em extinção. E o que mais castiga a cabeça humana: a culpa não é de ninguém. Boa noite, tchau.
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