quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O filho

Estou grávido de um filho que jamais darei à luz. Seu esqueleto foi montado com o mesmo oco das salas vazias, seu corpo foi predito nas aulas de anatomia, seus olhos são duas esferas luminosas defletindo o escuro do pai. Meu rebento não virá ao mundo, e já fala outra língua. Não é que seja a língua dos anjos, mas tem algo de sagrado nela, de ferino nela, de desumano nela, que é cortante, ardente, e que em dois sussurros se poderia fingir ter aprendido. Ao contar os dias de sua morada, dei-lhe em sonho um nome que, acordado, ainda não pude decifrar. Não estou certo do sexo, nem do tamanho dos pés, nem das mãos, nem do número de dedos; mas sei que há nele um gênio que lâmpada alguma poderia dar à luz. Em sonho nossos dois sonhos se confundem e, trocando de plano, partimos de mãos dadas rumo outro sonho abissal.

Luis Gustavo

sábado, 18 de outubro de 2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Soneto do amor de Judas Iscariotes

Aqui marcada fui com dedos quentes.
Aqui, onde o silêncio é como a tarde.
Aqui, onde os outeiros pensam longe.
Aqui marcada fui, e ainda arde.

Aqui talvez os pés se elevassem
em vez de se afundarem sob a terra.
De timidez em tumidez, vão longe
os dedos mal roçados de saudade.

No tronco de outro tempo andava escrito;
nos galhos de outro espaço demarcado:
o corpo sem fervor tem vida breve.

O rosto é de rapaz, e é tão bonito!
No tronco o peso dele ainda é leve...
Aqui jaz toda tarde um enforcado.

Luis Gustavo

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A solidão do soldado

A solidão do soldado

Nem adianta espernear:
mais cedo ou mais tarde
a solidão colhe todo boneco
e põe cada qual no seu canto.

luis gustavo

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Teus olhos se me encontram descampado

Teus olhos se me encontram descampado,
o peito nu beirando o céu deserto,
cascos quebrados sobre o chão-carvalho,
me querem nunciar destino incerto.

Teus olhos se me quebram como o orvalho,
qual lacrimoso sal, sal que é deserto,
põem-me no campo feito o espantalho
que esperasse a vida, o sopro eterno.

Já sei que tens um olho marejado
e outro seco de sertão, seco e deserto
- pois contra toda sorte o teu olhar é terno -

de mim não sei se águas hai escapado,
de mim sertões não sei melhor desperto,
com tantos sóis não sei como hai inverno.

Luis Gustavo Cardoso

A mão

Depois de tantos esforços, ei-la cansada: a mão.
Contra o branco do papel, carvão.
Contra o braço que lhe deu razão.
Contra o beco que há na boca: não.
Contra toda a natureza, a mão.

Depois de feita a criação.
Do verbo mais concreto.
Da sílaba perfeita destacada da amplidão.
A rima rude.
A rima rude então.

Para dizer à mulher que o amor chegou
os dois dedos da mão
o médio e o anular.

A flor-desolação
desabrochará quando haja umidade
e não sol.

Luis Gustavo Cardoso

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Carta para Basta

Faz tempo não lhe escrevo, Basta. De longe todo tipo de besteira é motivo pra eu me lembrar de você. Outro dia o taxista fez uma curva fechada, procurei o puta-que-pariu e nada: lembrei de você. Quando Errol Garner começou a tocar "My funny Valentine" numa gravação de 63 no canal Curta!: lembrei de você. Dizem que o amor acabou. Outra vez em outra cidade, percebo que é costume do amor correr o meio-fio e entrar pela boca de lobo mais perto de casa. Da saída de incêndio do edifício vejo os travecos, nossos novos malandros, de navalha em punho: assaltando o coração de outro macho. Recordo aquele nosso amigo que se dizia "malandro", o rei da brasilidade. Um dia ele chamou de "tambores de Angola" o som que vinha vizinho do nosso campus. Que nada, eram só as nossas pretas preparando o rango da moçada. Vestido de algodão sobre o jeans desbotado e um canto rouco, rouco de tanto trabalho. Recordei também o cretino que veio nos encher o saco durante uma festa da faculdade, falando em Scott Fitzgerald. Recordei então todos os cretinos, anotados e não anotados em nosso caderninho, e tive uma saudade imensa de você. De pouco em pouco vou esquecendo o lirismo. Acredito mesmo que esqueci como se escrevem aquelas coisas todas. Mas ainda acredito que a palavra amor seja apenas um anagrama, um anatema para tantos outros buracos de lobo por onde invariavelmente corremos, seguindo o meio-fio. Basta, você faz muita falta: seus olhos bastos de tão mansos e uma cadeira vazia.

Luis Gustavo